Empreendedorismo

'A vantagem de empreender num setor que você conhece pouco é não saber o que não dá para fazer'

Roberta Antunes, sócia e fundadora do Hotel Urbano, compartilha sua experiência trabalhando com turismo, marketing e internet na startup de viagens que cresceu de 5 a 600 funcionários em quatro anos

Cecília Araújo e Nathalia Bustamante, do , em 10.02.2016

Oferecer a mais pessoas a possibilidade de viajar e conhecer novos lugares. Foi essa a missão que Roberta Antunes assumiu em 2010, quando apostou na oportunidade de fazer parte da fundação de uma startup de viagens. Não estava exatamente na sua área – formada em Comunicação Social pela ESPM-RJ, morava há cinco anos nos Estados Unidos, onde era dona de uma rede de academias de jiu-jitsu. “Eu vim passar dez dias no Brasil, e o Duda e o João (os irmãos José Eduardo e João Ricardo Mendes) me chamaram para conversar porque queriam começar uma nova empresa”, conta.

Foi uma tarde que mudou sua vida: “A gente ficou umas três horas e meia conversando, fazendo planos de negócios... E eu liguei pro meu marido na época e falei: ‘Não vou voltar. Vou ficar aqui no Brasil e a gente vai abrir um negócio'.”. A oportunidade que os três anteviram focava em um setor com pouca presença no meio digital: a hotelaria. “O mercado brasileiro de hotelaria é muito fragmentado – 80% do mercado é de pequenos e médios hotéis e pousadas, que têm muita dificuldade com marketing, com o online, com chegar ao cliente. O Hotel Urbano entrou como um grande canal de distribuição, criando uma rede que acabou se tornando uma força para a gente."

Um dos objetivos era criar demanda para solucionar, através de pacotes promocionais e, a princípio, compras coletivas, o grande problema do setor que era a ociosidade em baixa temporada. Hoje, porém, a principal fonte de faturamento da empresa já mudou: “O modelo de negócios é muito vivo. Antes, vendíamos os pacotes. Com o tempo, vimos que os clientes foram ficando mais fiéis, e procuravam por um destino e para uma data específica. Com isso evoluímos para o sistema de reserva online. E a tendência é continuar evoluindo o modelo de negócios, entendendo cada vez mais a necessidade dos usuários”, comenta.

Para Roberta, foi importante encarar desde o início os hotéis como parceiros e, aproximando-se deles, entender como ajudá-los a solucionar problemas e crescer – o que, no fim, impulsionava também a expansão do próprio Hotel Urbano. Em cinco anos, a empresa foi de 5 a 600 funcionários, somando 7 ml hotéis parceiros e mais de 3,9 milhões de diárias vendidas.

Desafios do Crescimento Roberta conta que foi um desafio e um grande aprendizado empreender em um setor com o qual não tinha familiaridade. Os três fundadores já tinham trabalhado com internet, mas o segmento de turismo era uma novidade completa. Segundo ela, a operação começou muito simples, com um diretor comercial, um financeiro e ela no gerenciamento do Marketing. “Quando você não está no segmento, tem uma grande vantagem: você não sabe o que não dá para fazer. Se na época perguntássemos para quem trabalhava com hotelaria, todo mundo diria que não ia funcionar. Como não sabíamos que não dava, criamos um modelo de vendas completamente diferente”, comemora.

Sob o seu comando, a equipe de mídias sociais do Hotel Urbano construiu a maior página de viagens do Facebook, com mais de 13 milhões de fãs. “Desde o início a gente focou em construir uma audiência própria. Estar no segmento de turismo tem uma grande vantagem, porque viagem é um assunto sobre o qual as pessoas gostam de conversar, de compartilhar. Por isso, o Hotel Urbano sempre focou em Mídia Social, em contato com o cliente, para criarmos esse universo de pessoas que gostam de viajar”, observa. Com o crescimento, mudou a proporção dos números e das responsabilidades: desenvolvendo um profundo conhecimento sobre o setor, assumiu, em 2014, a presidência da empresa.

Aos 30 anos, Roberta figurou na lista “40 com menos de 40” – uma seleção dos empreendedores mais realizadores e promissores com menos de 40 anos publicada pela Revista Época. No início da sua carreira, porém, a carioca nunca tinha imaginado que empreenderia. Ainda durante a faculdade, trabalhou como garçonete em hotéis em Londres durante um intercâmbio. Na sua cabeça, “queria uma experiência internacional para que, quando eu voltasse para o Brasil, já procurasse uma empresa na qual quisesse ficar”. Retornando ao Brasil, foi estagiária nas Lojas Americanas, onde se encantou pela velocidade com que as coisas aconteciam na internet.

Os planos começaram a mudar quando, aos 23 anos, se casou e foi com o marido para a Califórnia. Depois de cinco anos lá, preparava-se para um MBA quando a viagem que mudaria sua vida aconteceu. Voltou para o Brasil e desde então sua rotina intensa de trabalho tem sido na missão de alcançar cada dia mais pessoas, oferecendo-lhes a oportunidade de viajar e conhecer novos lugares. Dois anos depois de fundar o Hotel Urbano, especializou-se em Liderança e Inovação na Harvard Business School. Hoje, inquieta, se prepara para assumir novos desafios profissionais – afastando-se da operação diária, mas mantendo-se ainda sócia e próxima da empresa que ajudou a construir.