‘Devemos ter exatamente as mesmas expectativas de homens e mulheres’, diz Anne-Marie Slaughter em Barnard

Na histórica faculdade feminina Barnard College, a executiva que começou uma discussão global sobre feminismo reforça: um futuro mais humano não depende apenas de igualdade profissional

Redação, do , em 19.12.2016
Anne Marie Slaughter em Barnard [reprodução]

Nas formaturas das grandes universidades norte-americanas, é comum que alguns dos maiores líderes da atualidade – ex-alunos ou não dessas instituições – sejam escolhidos para deixar suas mensagens aos estudantes prestes a se de formar. São os discursos de formatura, conhecidos em inglês como commencement addresses.

Em 2016, Anne-Marie Slaughter fez o discurso de formatura da Barnard College, uma histórica faculdade só para mulheres associada à Universidade Columbia, em Nova York.

Faz quatro anos que ela dominou o ciclo de notícias, editoriais e debates sobre o papel do feminismo contemporâneo graças a um ensaio para a revista The Atlantic, até hoje referência no tema.

Intitulado “Why women still can’t have it all”, ou “Por que as mulheres ainda não conseguem ter tudo”, a advogada formada em Harvard – onde também deu aulas – explicava por que deixou a prestigiosa posição de diretora na Secretaria de Estado dos EUA, à época liderada por Hillary Clinton.

Slaughter foi primeira mulher a ocupar aquele cargo, mas as longas horas de trabalho tiveram consequências para seus dois filhos adolescentes. Ela decidiu, então, sair do emprego e cuidar da família.

O artigo questionava: por que mulheres ainda precisam escolher entre cuidar de suas famílias e crescer na carreira, mesmo quando são mulheres muito privilegiadas? E por que não estamos falando a verdade sobre isso?

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A resposta foi, naturalmente, polêmica, e Slaughter se tornou uma palestrante disputada. Hoje é presidente e CEO do think tank New America, que discute políticas americanas na era digital.

Recebida com protestos por parte das formandas – algumas consideram as noções feministas de Slaughter elitistas, por exemplo –, sua escolha como oradora em Barnard mostra que ainda há muito espaço para discutir feminismo e liderança feminina nos dias de hoje.

Leia os melhores trechos do discurso abaixo, traduzidos pelo Na Prática.

O discurso de Anne-Marie Slaughter em Barnard

A questão mais profunda aqui é a natureza do feminismo contemporâneo: questões de quem pode falar por quem e do que devemos falar.

As manifestantes me acusaram de ser representante do “feminismo empresarial branco”, o feminismo “da classe média alta, de mulheres brancas e heterossexuais”, que se fixa no por que de mais mulheres não conseguirem chegar ao topo profissional ao invés de em todas as mulheres, particularmente mulheres que enfrentam as barreiras de raça, classe e orientação sexual, bem como o gênero.

O título do meu artigo de 2012 no Atlântico, “Por que as mulheres ainda não conseguem ter tudo”, também é tomado por símbolo da mulher rica que quer “ter tudo” ao invés de tentar ajudar mulheres que mal conseguem ter algo.

Mas minha identidade significa que eu não posso falar pelas mulheres que não se parecem comigo ou não vivem como eu?

Argumentarei hoje que cada um de nós pode falar apenas nossa própria verdade, mas podemos usar nossa verdade para nos posicionarmos pelos outros e por nós mesmos.

Falar e defender os outros, entretanto, precisa incluir criar espaços para que os outros possam se posicionar e falar por si mesmos – é por isso que elogio as manifestantes contrárias a mim.

Ainda assim, precisamos ir além do protesto. Hoje, neste país e neste mundo, devemos nos unir. Como mulheres, como homens e como membros de uma humanidade maior.

Devemos nos unir como competidores e como cuidadores.

Vocês já sabem tudo sobre a competição, é certamente parte do DNA americano.

Cuidado é investir nos outros, garantindo que familiares, membros da comunidade, estudantes, doentes, deficientes mentais e físicos e desfavorecidos cresçam e prosperem.

E é igualmente importante e valioso como atividade humana. Ser capaz de competir não deve negar a importância do cuidado.

Como profissional da política, posso dizer inequivocamente que talvez não haja uma atividade mais importante para a segurança, prosperidade e igualdade de nosso país no futuro do que investir no cuidado e educação de todos os nossos filhos.

Sabemos agora que nos primeiros cinco anos da vida de uma criança não estamos simplesmente enchendo seu cérebro com informações. Estamos moldando esse cérebro, determinando quanto e quão bem essa criança poderá aprender pelo resto da vida. Estamos determinando o futuro de nossa sociedade e, de fato, da humanidade.

Nem todas terão filhos. Mas todas vocês têm pais ou outros adultos que amam em sua vida e que envelhecerão, como de fato todos nós o faremos. E, no outro extremo da vida, o cuidado determinará não só quanto tempo viveremos, mas também quão bem, quão produtivamente, com quanta dignidade e autonomia.

Cuidar é o coração de nossa humanidade. Quando damos prêmios a grandes humanitários, estamos valorizando seu cuidado, não sua vitória.

Valorizar o cuidado tanto quanto a concorrência também é vital para um feminismo inclusivo e interseccional.

Não temos apenas poucas mulheres no topo: temos mulheres demais no fundo.

E, de longe, o maior grupo de mulheres no fundo são as mães solteiras, que recebem incentivos para trabalhar e sustentar suas famílias, mas não têm apoio em seu trabalho de cuidar dessas famílias.

Além disso, a maioria das cuidadoras são mulheres pobres e negras.

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Seu trabalho é essencial, mas pagamos-lhes o mesmo que pagamos aos que andam com nossos cães, fazem nossas bebidas e estacionam nossos carros. Devemos vê-las e compensá-las como a força de trabalho do futuro – o futuro de todos nós.

Devemos também nos unir como mulheres e como homens. Devemos ter exatamente as mesmas expectativas dos homens e das mulheres, que fornecem para suas famílias tanto cuidado quanto dinheiro.

Para as formandas de hoje que forem se casar com homens ou forem escolher parceiros de vida, vocês devem esperar que eles sejam igualmente competentes na hora de cuidar de crianças, pais ou outros membros da família quanto você.

E deve esperar que eles façam tradeoffs entre cuidado e carreira igualmente também, conforme for necessário. Isso significa adiar uma promoção para que você possa aceitar uma ou se mudar por você, caso sua carreira exija.

Mas também significa valorizar os homens que têm a coragem e a confiança para rejeitar os papéis de gênero tradicionais.

Arranjar dinheiro é muitas vezes mais fácil que arranjar tempo, mas uma família precisa de ambos. Os homens que estão dispostos a agir como pais principais ou cuidadores principais de seus próprios pais são pioneiros e estão vivendo os princípios da igualdade.

Devemos nos unir como mulheres e como homens – e como todas as mulheres.

Nesse espírito, deixe-me encerrar com as palavras da minha colega de honra, Chimamanda Adichie.

Uma feminista, em seu ponto de vista, é “um homem ou uma mulher que diz: ‘Sim, há um problema com o gênero como ele é hoje e devemos corrigi-lo, devemos fazer melhor'”.

O título de seu ensaio é “Sejamos todos feministas”.

Essa mensagem nunca foi tão importante. Vocês estão se formando em um momento extraordinário na história americana, quando há a primeira mulher candidata à presidência por um grande partido e seu adversário está abertamente usando racismo e sexismo.

A estratégia mais antiga que existe é “dividir e conquistar”. Mas não desta vez. Unidos nós ficamos, divididos nós caímos. Devemos ser feministas.

E, quando reivindicarmos o manto do feminismo que as nossas antepassadas teceram, juntamente com muitos de nossos antepassados, devemos usá-lo como um manto real, que nos empodera para nos posicionarmos e para defendermos todas as nossas irmãs e todos os nossos irmãos.

Como a Secretária Clinton proclamou em Pequim em 1995, os direitos das mulheres são direitos humanos. Segue-se que feminismo é também humanismo.

Então faça deste seu dia, seu tempo e seu mundo. Unam-se, levantem-se juntos e uns aos outros. Pela igualdade. E acima de tudo, pela a humanidade.

Leia o discurso na íntegra no site oficial da Barnard College.