Empreendedorismo social: 10 dicas para arrecadar fundos

Cofundadora do Global Good Fund, Carrie Rich tornou-se expert em arrecadação quase por acaso e hoje administra milhões de dólares; confira seus conselhos

Ana Pinho, do , em 27.06.2016
Menina ruiva sorrindo [Kristofer Dan-Bergman/Reprodução]

Serendipismo é um anglicismo ainda pouco utilizado no Brasil. Vem do termo “serendipity” e data do século 16, quando foi criado pelo autor Horace Walpole. Com o tempo, tornou-se sinônimo de descobertas felizes feitas por acidente.

É uma palavra apta para descrever a trajetória de Carrie Rich, cofundadora do Global Good Fund, fundo que investe em empreendedores de alto impacto social pelo mundo. Em palestra recente em São Paulo, a americana contou que, apesar do interesse antigo pelo tema, acabou criando a organização praticamente por acaso.

Amiga próxima de seu chefe na época, o CEO de uma companhia de saúde e hoje seu sócio no fundo, Carrie propôs que ele destinasse uma certa quantia para investir em empreendedores sociais promissores.

Ele recusou a proposta inicial, mas deu-lhe um cheque de US$ 100 em seu aniversário. Era um desafio: investir aquele montante da melhor maneira possível. Interessada, Carrie decidiu multiplicar o dinheiro por dez e enviou e-mails para seis ONGs que conhecia, perguntando o que fariam com o valor.

As respostas foram tão inspiradoras que ela mudou de ideia: arrecadaria US$ 6000 e daria US$ 1000 para cada uma. Enviou um email para todos os amigos, conhecidos e familiares explicando a proposta e aguardou. Logo doações de 20, 30 e mesmo 100 dólares começaram a chegar.

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Em duas semanas, a arrecadação estava completa. Foi quando Carrie recebeu a ligação de um doador anônimo, com quem tinha trocado alguns minutos de conversa num evento e enviado um único email de follow up (dica número 1 de networking, aliás).

Ele lhe deu um cheque de US$ 1 milhão. “Eu estava hiperventilando, não sabia o que fazer”, lembra ela. “Quando ele me perguntou qual era o nome da organização, falei qualquer coisa e saiu ‘Global Good Fund’.” Questionada sobre o que faria com o dinheiro, viu-se dizendo que encontraria empreendedores sociais fazendo coisas incríveis pelo mundo e investiria neles.

Carrie Rich - Empreendedorismo Social

[divulgação]

Atônita, levou o cheque ao chefe. Empolgado, o CEO decidiu doar US$ 1 milhão também. Carrie se viu de repente administrando US$ 2 milhões e uma ONG recém-nascida – e literalmente caiu da cadeira.

Desde então, tornou-se especialista em arrecadar fundos intencionalmente e hoje investe em 38 empreendedores sociais, incluindo a brasileira Liziane Silva.

“Muito do que digo hoje aprendi ao falhar”, resume ela. Confira a seguir algumas de suas dicas para empreendedores sociais se tornarem mais eficazes na hora de pedir investimentos.

1. Apresente um bom plano financeiro. Assim, outras pessoas vão conseguir entender onde você quer chegar e investir em seu negócio.

2. Seja a ponte que conecta as pessoas com o que importa para elas. Todos querem fazer a diferença de alguma maneira. Alguns têm tempo, outros têm dinheiro, alguns tem ambos. É importante apresentar uma plataforma que ligue investidores a algo maior que eles mesmos.

3. Arrecade capital, não doações. Muitos países, como o Brasil, ainda não tem uma cultura filantrópica tão bem desenvolvida quanto a americana. Seja no Quênia ou no Vietnã, diz Carrie, buscar investimentos costuma ter melhores resultados que passar o chapéu.

4. Desenvolva uma rede de pessoas que se identifiquem com sua causa. Segundo Carrie, frequentemente é mais fácil arrecadar dinheiro com poucas pessoas do que via crowdfunding. Sua sugestão é que o empreendedor pense numa lista de 10 investidores em potencial e comece por ali.

5. Escute e pergunte o que importa para as pessoas. É fundamental remover o dinheiro da conversa e envolvê-las com o projeto, diz Carrie.

6. Mantenha-se focado no que está vendendo. Não se distraia com outras ideias ou propostas.

7. Busque investidores alinhados com seus valores e missão. Sejam indivíduos ou empresas, é mais fácil convencer alguém a investir no negócio se há uma base compartilhada e cativante.

8. A segunda vez é chave. Uma primeira conversa serve para que o empreendedor saiba mais sobre o possível investidor: causas de preferência, valores, sonhos. A segunda é um momento-chave, em que já é possível pedir algo – e não precisa ser necessariamente dinheiro.

9. Faça um bom pitch. Quando for em busca de investimentos, o empreendedor precisa ser capaz de responder algumas perguntas sobre seu negócio. Carrie lembra que ter um bom plano de negócios em mãos é crucial nesse momento. Só assim um pitch eficaz pode surgir.

10. Faça um plano de vida para evitar distrações. Carrie diz que já apresentou o seu em reuniões, mas que é útil mesmo no dia a dia. Como o empreendedor social investe no próprio negócio – “e se você não investiu em si mesmo, como vai convencer os outros a investirem?”, pergunta ela –, é importante ter claros seus objetivos de curto, médio e longo prazo, tanto financeiros quanto pessoais e profissionais. Com um bom plano em mãos, é possível enxergar como investir seu capital financeiro no que importa para você.